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Diário da Canastra - Parte 1

thiagopontoglio9
5 de dez. de 2025
5 min de leitura

Tudo começou em uma dessas viagens a trabalho, em que os longos quilômetros percorridos (sem termos escolha alguma) transformam completos estranhos em amigos. Conversa vai, conversa vem, os interesses em comum surgem naturalmente, até que esse colega, aficionado por rapel, me conta o nome curioso de uma cachoeira não tão distante da minha cidade.


Desde então, a cachoeira Casca d’Anta não saiu mais da minha cabeça. O imaginário que essa imensa queda-d’água me causa se conecta diretamente aos livros de fantasia que leio desde a infância, um cenário digno de Tolkien, que poderia facilmente ter saltado das páginas de um de seus livros.


Depois de alguns anos, chegou finalmente o momento de ir para a Serra da Canastra, conhecer sua cachoeira mais alta, sua gastronomia com gosto de aconchego e suas pessoas sempre receptivas.


Mala arrumada, carro carregado, hora de partir.


Em 28 de novembro de 2025 saímos de Ribeirão Preto, interior de SP, por volta das oito da manhã. Logo no início da estrada, um senso de liberdade começou a aflorar, difícil de descrever, algo relacionado a seguir rumo a um lugar desconhecido, novo, onde não sabemos o que nos espera. Cinco horas depois, chegamos a Vargem Bonita, MG, a última cidade com posto de combustível em nosso trajeto.


Após abastecer o carro, tínhamos pela frente quarenta minutos de estrada de terra, com algumas gotas começando a cair do céu. Aqui vale ressaltar o receio que senti naquele momento, um tipo de incerteza que as cidades e os grandes centros urbanos nos privam por termos tudo tão facilmente. E se o carro quebrar, e se atolarmos, quem vai nos ajudar? Ninguém. Há uma certa paz em se confrontar com essa sensação de vez em quando, o reconhecimento súbito de que você está sozinho e, se algo acontecer, precisará resolver.


Tivemos muita sorte nessa viagem. A previsão do tempo não era das melhores, mas aquelas poucas gotas foram as únicas que vimos durante os três dias na Serra.


O tempo abriu, o sol apareceu e chegamos enfim a uma cidadezinha chamada São José do Barreiro. Com seus três restaurantes, uma pastelaria e uma igrejinha, fomos rapidamente apresentados ao ritmo das pouco mais de três mil pessoas que vivem ali. Almoçamos uma autêntica comida mineira no restaurante Paredão da Canastra, com direito a fogão a lenha e queijo com goiabada de sobremesa.



Após mais quinze minutinhos de estrada de terra, chegamos à nossa pousada, escolhida pela proximidade com a Portaria 4, que dá acesso à Casca d’Anta. Recomendo a Pousada Pé na Canastra a todos que quiserem conhecer a região. Seus anfitriões, Luciana e Duzi, nos receberam com a atenção e o calor típicos de Minas. Sem falar na vista do chalé, voltada para o impressionante paredão da Canastra.



Sem muito tempo a perder, logo após nos acomodarmos, seguimos para a atração principal. Cerca de vinte minutos depois, chegamos à Portaria 4 da Serra da Canastra. Ali passamos por uma inspeção dos órgãos ambientais, e por algum motivo que não compreendo e com o qual não concordo, drones não podem entrar no parque. A burocracia de que tanto tentamos fugir, nos encontrando mesmo nos lugares mais remotos...


Da portaria até a cachoeira são um quilômetro e meio de trilha bem marcada e de fácil acesso. E então, finalmente, ela surgiu diante de nós, a cachoeira que habitava meu imaginário havia pelo menos três anos. E nenhuma palavra a descreve melhor do que imponência.


A imensidão daquele volume de água despencando de quase duzentos metros de altura é algo que deve ser visto com os próprios olhos. Junto com a satisfação de estar ali, meu primeiro pensamento foi, está aqui uma paisagem saída diretamente da Terra-média. Como nos sentimos pequenos em lugares assim, lugares que transcendem a nossa existência, lugares que Estavam muito antes de nós e que Estarão muito depois.


Após alguns minutos contemplando e permitindo que o choque inicial se dissipasse, começamos a enxergar o lugar em sua totalidade, e ali surgiu a pressão interna por voltar para casa com boas imagens. E é nesse momento que entra a voz do Fotógrafo.


A primeira coisa a fazer era garantir as fotos óbvias, aquelas que todo turista faz, mas que não podemos deixar de registrar. Com a grande angular, sem tripé e sem filtros, apenas disparei algumas imagens iniciais.


Em seguida, veio a etapa mais importante, pensar em como eu realmente queria retratar aquele lugar. E aqui entram nossas referências pessoais. Baseado em São Francisco, o fotógrafo Michael Shainblum é uma referência para mim há bastante tempo. Em seus vlogs pelos parques nacionais norte-americanos, ele demonstra uma sensibilidade enorme ao fotografar cachoeiras. Com ele aprendi que, em cenas tão grandiosas, é mais importante capturar os detalhes ao invés do todo.


Com essa clareza, abri a mochila e acoplei a teleobjetiva na câmera. Trezentos milímetros eram mais que suficientes para o que eu tinha em mente, apenas registrar o movimento da água.


Estávamos a uns vinte metros da queda, e o spray já era forte o bastante para molhar o equipamento. Três metros atrás de nós, um barulho estranho começou a soar, provavelmente uma serpente. Nada a fazer, além de prestar atenção e evitar que ela se aproximasse, afinal estávamos em seu habitat.


Em meio a esse cenário de tensão, fui fazendo múltiplos disparos fechados na força da água, até que o que eu esperava aconteceu. O sol saiu de trás das nuvens, e um arco-íris se formou no spray que nos molhava.


O fotógrafo de paisagem conhece a efemeridade dessas cenas e, quando elas acontecem, você precisa estar preparado. Prontamente reduzi o ISO, ajustei a velocidade do obturador para receber a luz que surgia por entre as nuvens, e por dois ou três minutos capturei tudo o que podia até o sol ser novamente encoberto. A satisfação foi enorme, consegui exatamente a foto que fui buscar, digna, ao meu ver, de uma das fotos de Shainblum.




Aqui termina a voz do Fotógrafo e retorna a do Viajante. Depois de registrar o que eu queria, só me restava aproveitar o lugar com minha mulher e apreciar com calma aquela força da natureza.


Nesse ponto, vale detalhar um acontecimento. É proibido nadar na cachoeira por conta do elevado volume de água. Mesmo assim, duas pessoas passaram por nós e seguiram direto para o poço, atravessando as pedras com naturalidade. Chegando lá embaixo, abriram os braços e se jogaram na água. Que sensação de liberdade devem ter sentido, e que inveja senti naquele instante, restrito a mero observador. Esse momento me fez refletir, como existem pessoas desapegadas a certas convenções e medos, e como essas pessoas têm as melhores histórias no final do dia.


Missão cumprida, voltamos para a pousada com uma golden hour de tirar o fôlego, iluminando de dourado o paredão imenso da Canastra. Que presente.





À noite fomos jantar na pastelaria de São José do Barreiro, onde pudemos observar um pouco do cotidiano de uma cidade tão pequena. O sertanejo no radinho, as famílias saindo para comer pastel, todos se cumprimentando pelo nome, claro.


Para fechar o dia com chave de ouro, voltamos para a pousada e fomos presenteados novamente, dessa vez por inúmeros vagalumes voando na escuridão à frente do chalé. Há quantos anos eu não via um desses, provavelmente desde minha infância no rancho de meu avô em Delfinópolis, enfim... Um dos privilégios da região.


Essas são minhas memórias e percepções sobre esse primeiro dia que passamos na Serra da Canastra, o dia seguinte também foi repleto de histórias, e certamente será contado em um próximo texto.

 
 
 

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